Imagine que vai almoçar a um restaurante onde se diz que o cozido-à-portuguesa é excelente, mas tem de levar as carnes, as couves e as batatas. O restaurante utiliza os alimentos que você levou, e no final do almoço cobra-lhe a refeição como se tivesse sido o restaurante a comprar os alimentos. Reserve esta ideia.
Qualquer coisa que se queira manter, tem de ser sustentável, não pode depender de voluntarismo e da incerteza sobre o que vai existir para funcionar. Essa foi, desde logo, a ideia que levou a que o Bar do Ginásio subisse as persianas, na época 2024/25, com um conceito diferente do que havia funcionado até ali: embora ninguém fosse virar as costas às ofertas dos pais, isso não podia ser, e não seria, a base de trabalho. O bar teria de se sustentar por si mesmo, isto é, com o que ali se conseguisse fazer, seria preciso poder comprar os produtos para voltar a vender na abertura seguinte, sem precisar que os pais levassem novamente ofertas.
“embora ninguém fosse virar as costas às ofertas dos pais, isso não podia ser, e não seria, a base de trabalho”
Pois bem, até se ter começado a trabalhar assim, o bar abria fundamentalmente com as coisas que os pais levavam de casa. E, apesar da muito boa-vontade, nem sempre se conseguiam vender as coisas que os pais levavam. Alguns doces de fabrico industrial, por exemplo, não se conseguiam vender, a não ser talvez já no fim, quando não existia mais nada. E mesmo assim, sem garantias. Era evidente que o bar precisava ser autónomo e ter uma carta própria de produtos, de entre aqueles que se sabia que iriam vender facilmente e se podiam preparar ali, com os meios existentes.
Muito naturalmente, neste modo de operar – autónomo, sem depender de ofertas – a actividade leva muito mais tempo a mostrar resultados expressivos. Uma coisa é fazer um pé-de-meia a partir de ofertas, em que 100% daquilo que se vende é lucro, porque a quem vende não custou nada fazer, outra bem diferente é ter de suportar as despesas de funcionamento. Convém não esquecer que o pão não é de borla, a carne para bifanas não é de borla, as bebidas não são de borla, vejamos, nada é de borla. Até as coisas que os pais levam como ofertas de casa, para vender no bar, não é de borla. Os pais que levam as coisas, pagam para as fazer. Pagam os ingredientes, pagam a energia, pagam o seu tempo.
Se não estamos a vender uma coisa que nos foi oferecida, é óbvio que se for vendido por 2, não vai render 2 para a caixa. Vai render menos, porque desses 2 vai ser preciso descontar a matéria-prima: neste caso, os alimentos. Isto devia ser evidente, é da mais elementar economia familiar e dispensa ter-se portas abertas ao público para entender, mas são tantos os anos a funcionar “à sócio”, com as ofertas, que até as pessoas que têm negócios podem esquecer-se das mais elementares regras. O lucro é o que sobra depois de pagas as despesas.
Por outro lado, é certo que houve dias bons, mas esses dias bons não foram a regra. Se se faz uma festa do andebol com uma dezena ou uma dúzia de equipas, isso é potencialmente bom e pode fazer-se bom dinheiro, mas também é preciso gastar mais para ter o que vender, portanto as contas melhoram, sim, mas não permitem grandes aventuras. Se há equipas de fora, isso pode ser bom, sim, mas não se esqueçam que nos escalões de formação, algumas equipas de mais longe trazem o seu próprio farnel, e outras, de mais perto, não precisam vir cá comer bifanas, estão perto de casa.
E, não se esqueçam de uma outra coisa: lá porque o Ginásio usa os carros dos papás para levar as meninas a jogar fora – e os papás depois vão, quando vão, aos bares desses clubes gastar algum -, há vários outros clubes que nos visitam que têm mais recursos ou apoios, e os papás não aparecem. Não aparecem para ver as filhas, e também não aparecem para gastar no bar. Não há milagres: ou há gente, ou quem gasta aqui, são os da casa.
Há muitas razões para que um dia de bar aberto não renda mais que uma dezena de euricos, ou menos que isso. Em muitas ocasiões, quem consome no bar são os próprios pais que ali estão, e ao fazer isso estão a pagar duas vezes: pagaram as coisas que ofereceram, e ainda pagam outra vez para as comer, o que é engraçado, porque no fim de contas, se receberem alguma coisa de volta no final do ano, só estão a ir buscar uma migalha do que lá meteram antes.
Quem não está, ou não esteve em algum momento, no bar, pode ficar com a ideia de que aquilo é uma enorme galinha-dos-ovos-de-ouro. Mas, infelizmente, isso é um grande engano. E é ainda mais enganador quando se faz uma tentativa de que o bar funcione sozinho, sem precisar de ofertas vindas de casa dos papás. E mais, funcionar com base nas ofertas dos papás, é enganar os papás. Abrir portas, ou subir persianas, tem custos. É muito bom não ter de pagar a água ou a electricidade. Mas,como já se escreveu, é preciso pagar o pão, a carne, os molhos, os doces, as batatas, as bebidas, os pratos, as palhinhas, as máquinas que avariam, as torneiras que avariam, tudo. Ou acham que é sistema estar a dormir à sombra da bananeira, achando que os papás têm de trazer tudo, incluindo descartáveis? Que desperdício, não?
“funcionar com base nas ofertas dos papás, é enganar os papás”
Ora então, diria que é fácil perceber que o Bar do Ginásio funcionou – quase sempre? – em modo pescadinha-de-rabo-na-boca. Os papás levam os alimentos, levam os pratos, levam o que for preciso, comem e bebem e pagam, e no final do ano recebem de volta uma espécie de desconto, com a divisão dos lucros do bar. E ficam todos contentes. E aí até podem, os menos atentos, dizer: ah, mas está certo, eu levei umas coisas, agora vou lá buscar! Até poderia ser – embora seja má prática financeira – mas depois começa-se a perceber que aquilo que lá se deixa, em ofertas e em trabalho, vale mais dinheiro do que aquilo que lá se vai buscar, e também se começa a perceber que há sempre quem dê muito, e quem dê pouco ou nada, e nisto de distribuir vantagens, fica sempre muito bem distribuir por igual, e uns pagam por outros. Tem tudo muita piada, por um tempo. Depois cansa. E de palermas ninguém gosta de pintar o rosto.
O que se tentou fazer foi diferente disto. Recupere o começo deste texto: o modo como o bar estava a funcionar era o mesmo que você levar para o restaurante os alimentos que ia comer e pagar (de novo) no final. Faz-lhe sentido? A mim não faz.
Aplicar o pecúlio do bar para descontar torneios de final de ano é uma ideia aparentemente simpática, mas reveladora de fraca literacia financeira. Não só não se está verdadeiramente a obter nada (porque não se criou riqueza, apenas se redistribuiu sem critérios muito claros) como se está também a confiar a gestão do seu esforço a terceiros. Porquê? Sabendo que existe sempre um torneio no final do ano – e isso é falado, mesmo aos mais novos, nas reuniões de começo de época – não é mais sensato tentar dividir o esforço de, por exemplo, 150 euros por 10 meses da época? Cuidar você do seu destino financeiro ao invés de transferir para outros a possibilidade de vir a ter um benefício qualquer que não sabe bem quanto?
Num espaço com tantas carências, em que os pais além da mensalidade precisam suportar as deslocações das atletas para fora do Ginásio (combustível, portagens, desgaste), em que não existe um veículo automóvel para as levar aos jogos, em que conseguir equipamentos de jogo uniformes nem sempre parece fácil, não haveria mais coisas a fazer?
Custear torneios de final de época não era o objectivo do bar quando ele foi aberto na época 2024/25. Era mais interessante criar um fundo para coisas mais além, quem sabe mesmo poder um dia arranjar um veículo para as deslocações, ou garantir que e equipa ficava sempre bem representada nos seus equipamentos, ou garantir que nada faltaria mesmo às atletas com maiores dificuldades financeiras.
O modo de funcionamento e os objectivos nunca foram obscuros nem escondidos. Mas, nisto, como em várias coisas na vida, o que não se escreve e faz saber publicamente, fica sujeito a interpretações variáveis, e cria espaço para que pessoas com informação a menos, ou malícia a mais, façam os raciocínios mais tortuosos. O bar teria, a prazo, condições para gerar o seu próprio momento (este momento é um conceito da física, digamos para simplificar, a sua própria dinâmica), mas foi interrompido demasiado cedo talvez por cupidez, ou puro desinteresse neste modo de funcionar. Nunca se saberá ao certo. O que se percebe é que se se interrompe muito cedo uma coisa que começa a ganhar asas, o resultado é sempre muito mais discreto do que poderia ser. Pena é que em vez de se tentar perceber porquê, se procurem explicações mais simples, mas erradas, viciadas em práticas antigas.
Da próxima vez que for a um restaurante, lembre-se que não levou a comida consigo para lha venderem. E sempre que lhe prometerem um benefício, pergunte-se se estão mesmo a oferecer-lhe algo, ou apenas a devolver-lhe algo que já deu antes, ou se aquilo que lhe dão agora, é menos do que você deu antes. E não entre em coisas que não fiquem escritas. Com. todas. as. letras.
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